As tendências do universo da computação que deverão acelerar a transformação digital na vida e nos negócios neste ano
As listas de tendências em tecnologia são tradicionais entre empresas, sites especializados, consultorias e instituições de ensino e pesquisa. Filtrando as tecnologias mais citadas, que chegam facilmente às dezenas, é possível montar outra lista mais resumida, só do universo da computação. O que esperar em transformação digital para 2023?

Muitas dessas tendências já são conhecidas, pois frequentaram o noticiário no ano passado. Textos e imagens criados por inteligência artificial, metaverso e computação quântica estão entre as mais divulgadas. Mas, diante do potencial que adquiriram, crescerão ainda mais neste e nos próximos anos, sugerem os especialistas em tecnologia. E algumas delas, como é inevitável, desafiarão os limites éticos da humanidade.

1. IA generativa

DALL-E, Stable Diffusion, Midjourney, GPT-3, Codex, DeepMind. São alguns dos nomes de tecnologias de inteligência artificial (IA) generativa que geram textos, imagens, sons e modelos em três dimensões a partir de comandos humanos passados aos computadores. A capacidade de essas ferramentas produzirem textos fiáveis e bem-escritos está se tornando tão absurda que outros programadores tentam agora desenvolver aplicativos que identifiquem textos redigidos por IA.

Em 2022, o artista Jason Allen venceu um concurso de arte digital nos Estados Unidos com uma imagem produzida no Midjourney, uma ferramenta que cria imagens a partir de comandos de texto. A história levou ao ápice da curiosidade sobre uma tecnologia que não é recente, mas que vem sendo aprimorada no passo dos avanços em inteligência artificial, aprendizado de máquina e deep learning.

Além dos laboratórios independentes, praticamente todas as Big Techs estão atrás de aplicativos de inteligência artificial generativa. Uma das iniciativas mais famosas é o ChatGPT, um chatbot desenvolvido pela OpenAI, baseado no modelo de linguagem GPT-3. O seu algoritmo elabora textos complexos (ficção ou não, prosa ou verso, cartas, e-mails, reportagens) como se fossem escritos por humanos.

Levantamento da empresa Pitchbook citado pela revista The Atlantic calcula um investimento de cerca de 1,4 bilhão de dólares em empresas de IA generativa só em 2022, o equivalente à soma dos cinco anos anteriores. A Microsoft, por exemplo, aplicou 3 bilhões de dólares na OpenAI desde 2019, com a intenção de incorporar uma ferramenta similar ao ChatGPT no seu mecanismo de busca, o Bing.

O viés da tecnologia está na qualidade da informação que as ferramentas podem encontrar na internet. Junto a tanta informação útil, há discursos de ódio, fake news e comportamentos preconceituosos, que a inteligência artificial não parece habilitada a distinguir e torna-se vulnerável a reproduzir. Importante: a IA generativa depende da supervisão humana, então a preocupação com a ética da inteligência artificial continua em alta, como apontaram as tendências de 2022. E a discussão sobre direitos autorais e plágio deve ficar ainda mais relevante.

2. Metaverso

O metaverso já estava entre as tendências de 2022, mas ganha cada vez fôlego entre os entusiastas do mercado corporativo. A plataforma deve se intensificar nos Estados Unidos em até três anos, segundo 82% dos mil líderes empresariais ouvidos pela consultoria PwC. Algumas companhias já simulam operações no universo digital, como o varejo, a indústria, o setor de restaurantes e as instituições financeiras. Também é grande a expectativa a respeito de soluções em integração, treinamento, interação entre colegas de trabalho e conteúdo digital para clientes.

Ferramentas agregadas de realidade virtual e realidade aumentada são testadas para substituir reuniões presenciais — o que agregaria à redução de emissões de gases no transporte e se alinharia às políticas ambientais de ESG. Estudo da consultoria McKinsey estima o valor mundial do metaverso em 5 trilhões de dólares até 2030, impulsionado por comércio eletrônico, aprendizado virtual, publicidade e jogos eletrônicos.

A venda crescente de dispositivos de realidade aumentada e virtual deve levar esse mercado para transações de 250 bilhões de dólares em 2028, prevê o levantamento do site Statista. Segundo a empresa de pesquisas Grand View, o segmento de realidade expandida cresce devido à adoção da tecnologia no setor de saúde, principalmente para treinamento de procedimentos cirúrgicos. O metaverso seguiria o embalo como infraestrutura de interação entre os parceiros de trabalho.

3. Web3 e blockchain

O pedido de falência da FTX, na esteira do indiciamento criminal do empresário Sam Bankman-Fried, foi o golpe mais recente na credibilidade das criptomoedas, que usam a tecnologia da blockchain. Fraudes já haviam se tornado frequentes no mercado de moedas digitais, mas a FTX tem quase 1 milhão de investidores e depositantes, devendo algo próximo aos 3 bilhões de dólares só para os 50 maiores credores. A revista The Economist diz que o processo de falência pode levar uma década e revelar novas acusações de irregularidades.

As criptomoedas, porém, são uma pequena parte da blockchain, criada para viabilizar transações financeiras e que se expandiu para a criação de aplicações descentralizadas — consequentemente, sem regulação oficial. A tecnologia da blockchain, que já vinha sendo escolhida como tendência em anos anteriores, pode ser usada para autenticar processos e documentos, como algumas empresas já fazem na emissão de notas fiscais, e permite criptografar dados.

O Banco Central do Brasil, por exemplo, já trabalha com a ideia do real digital, que conectaria o sistema financeiro oficial com a economia descentralizada. Esse movimento não deixa de ser um indicativo da regulação das criptomoedas no futuro.

A blockchain também está por trás da Web3 ou Web 3.0 — a denominação de um conjunto de redes descentralizadas que agem sob a internet e no qual se inclui o conjunto das diferentes redes blockchain existentes. Dentro desse ecossistema, existem algumas redes que permitem o gerenciamento de contratos inteligentes (smart contracts) e viabilizam a criação de NFTs. Uma ideia movimenta os entusiastas da Web3: reduzir a força das operações pelas Big Techs, que controlam atualmente quase metade do tráfego na internet.

4. Multicloud e metacloud

Uma pesquisa da consultoria McKinsey diz que as empresas pretendem transferir 60% da sua estrutura de tecnologia da informação para a nuvem até 2025. A decisão não tem sido tão simples assim. Até 85% das companhias estão usando duas ou mais plataformas de nuvem e 25% estão usando pelo menos cinco, conforme relatório da consultoria Deloitte.

Isso significa que, para não ficarem sujeitas às regras de um único fornecedor, as empresas estão precisando administrar uma rede mais complexa de dados em nuvem. Nesse conceito de multicloud, usam-se serviços de mais de um fornecedor de nuvem, tanto em software quanto em plataforma e infraestrutura.

Ao adotar dois ou mais fornecedores, as empresas melhoram o desempenho das suas ferramentas e aproveitam o melhor de cada tecnologia disponível na nuvem. Ao mesmo tempo, podem arcar com serviços redundantes, falhas de segurança e dificuldade na contratação de pessoal especializado em tantas tecnologias.

Uma das tendências, segundo a Deloitte, é o metacloud, que passa pelo desenvolvimento de uma camada de compatibilidade que fornece acesso a serviços comuns, como armazenamento e poder de computação, dados, inteligência artificial, segurança, governança e implantação de aplicativos, entre outros. A infraestrutura de TI ficaria menos complexa para essas companhias. Ainda não há uma solução consolidada de metacloud, mas a busca incessante por uma resposta na área confirma que a tecnologia veio para ficar.

5. Computação quântica

A IBM prometeu um computador quântico de 1.000 qubits para 2023 e pretende chegar aos 4.000 qubits até 2025. A evolução recente da computação quântica consolida a tecnologia como tendência, segundo o relatório da IEEE, organização que reúne engenheiros, cientistas da computação, desenvolvedores de software e profissionais de TI. Essas máquinas serão capazes de realizar operações trilhões de vezes mais rapidamente do que os processadores de computadores clássicos.

Em 2022, o Prêmio Nobel de Física reconheceu o trabalho de três cientistas (o americano John Clauser, o francês Alain Aspect e o austríaco Anton Zeilinger) que provaram que o emaranhamento quântico pode ser controlado e utilizado em computadores e serviços de comunicação. Assim, novos caminhos foram abertos em direção à computação quântica.

Já existem outros computadores que romperam a barreira dos milhares de qubits, mas que ainda são usados em tarefas altamente especializadas. A IBM, que tem um chip quântico de 433 qubits, pretende usar essas máquinas em operações gerais. Até o final desta década, o mercado mundial de computação quântica deve chegar aos 50 bilhões de dólares, segundo a consultoria KPMG. O estudo mostra que 13% das empresas pesquisadas investiram em computação quântica ou planejam investir nos próximos seis meses. Outras 25% planejam investimentos nos próximos seis a 12 meses.

6. Superaplicativos

O relatório de tendências tecnológicas da consultoria Gartner compara os superaplicativos a um canivete suíço, capaz de substituir diversas ferramentas de TI em um único software. A empresa diz que os superappssão “executados em uma plataforma que fornece vários serviços de aplicativos comumente usados, como mensagens e pagamento”. Mais da metade da população mundial usará ativamente os superaplicativos até 2027, segundo a Gartner.

Uma das condições para a ascensão do superapp está dada: as pessoas mais jovens, que estão integradas ao mercado de trabalho, preferem os dispositivos móveis para realizar a maioria das atividades do dia a dia, inclusive as profissionais. Uma pesquisa de marketing da eMarketer indica que, nos Estados Unidos, os usuários de smartphones passam quatro horas diárias na internet, sendo que em 88% do tempo ficam conectados a aplicativos.

Empresas tradicionais do varejo, por exemplo, já permitem ao cliente, num único aplicativo, comprar, financiar, acumular pontos de fidelidade, montar listas de desejos e adquirir créditos para celulares. Fintechs, bancos, serviços de delivery, mensageiros de texto e voz, entre outros, também já têm seus superaplicativos. O chinês WeChat, que agrega mídia social, mensagens e serviços e marketplaces, tem 1,3 bilhão de usuários ativos. A consultoria Deloitte estima que um em cada quatro usuários de internet americanos de 18 a 24 anos está no WeChat.

7. Gêmeos digitais, impressão 3D e manufatura aditiva

Os gêmeos digitais (digital twins) são uma representação digital de alta fidelidade de um objeto físico, que se atualiza continuamente quando sua contraparte física muda. Podem ser utilizados em diversas aplicações, como o desenvolvimento de produtos e a melhoria de processos. O mercado de gêmeos digitais será de 7 bilhões de euros na Europa em 2025, segundo a consultoria McKinsey, crescendo a uma taxa anual de 30% a 45%.

Por que a tecnologia é uma tendência? A McKinsey estima que, usando digital twins, as empresas podem aumentar a sua receita em até 10%, reduzir o tempo de lançamento de produtos pela metade e melhorar a qualidade dessas mercadorias em 25%. Em média, esse tem sido o ganho de produtividade das companhias entrevistadas pela consultoria que já adotam os gêmeos digitais.

O desenvolvimento da tecnologia tem contribuído para boa parte da indústria de veículos elétricos (autônomos ou não), aeroespacial e de defesa, energia renovável, instrumentos de precisão, eletrônicos e eletrodomésticos, além de serviços de logística e manutenção preditiva. E, em paralelo, acabam impulsionando os aplicativos e as ferramentas de impressão 3D, uma alternativa rápida e prática para gerar protótipos.

A manufatura aditiva, com o seu potencial de revolucionar o processo de fabricação de peças na indústria, caminha em direção à impressão 3D, uma das áreas de pesquisa dos cursos de Engenharia do Insper. A McKinsey registra a existência de 200 empresas que competem no desenvolvimento de hardwares, softwares e materiais para manufatura aditiva.

By game

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